AKHENATON
Akhenaton
(18ª Dinastia)

Nos anos finais da Décima Oitava Dinastia, o Faraó Akhenaton teve a revelação de se devotar a um só deus, Aton (pois o Egito teria que ser preparado para a vinda do Messias - Jesus) onde teve o concurso de sua bela mulher e rainha, Nefertiti. O nome Nefertiti significa "a bela mulher chegou", "deslumbrante é a beleza de Aton". Ele atreveu-se a mostrar sua convicção, havia chegado o momento de seu povo ter nova religião, e, no intuito de estabelecer essa idéia, procurou desviar do povo o culto aos muitos deuses e levá-lo a devotar-se a um só. No esforço para difundir a nova crença ao povo, apenas conseguiu, daí por diante, ser conhecido como o herege. Akhenaton era uma pessoa controvertida e idealista que deixou com sua presença uma marca indelével na história do mundo. Akhenaton achava também que o poder dos sacerdotes sobre o povo e os reis devia sofrer restrições e nova orientação.

A Décima Oitava Dinastia teve início por volta de 1570 a. C. e produziu muitos faraós brilhantes, entre os quais Ahmoses, Tutmosis III, Amenhotep III e, naturalmente, a Rainha Hatshepsut.

Devido às conquistas dos faraós anteriores, Tebas tornou-se a mais rica e poderosa cidade da terra pois, a riqueza das províncias conquistadas fluíam para Karnak, em Tebas. Os tesouros do templo do deus Amon em Karnak estavam repletos de ouro, prata, bronze, cobre e pedras semipreciosas trazidas pelos guerreiros cruzados. Os estados vassalos continuaram a enviar seu tributo anual ao faraó. A mais antiga civilização do mundo estava mais gloriosa que nunca. O deus Amon em Karnak fora igualado ao deus-sol Ra.

O poderio dos sacerdotes, guardiães dos tesouros do templo, quase que se poderia comparar ao do faraó. Sob o reinado de Amenhotep III continuou imperando uma paz suntuosa.

Acredita-se que Amenhotep sentia-se preocupado com o crescente poder do sacerdócio de Amon e tornou a favorecer o deus-sol Ra, que fora adorado pelos reis do Antigo Reino. Ra era às vezes chamado de Aton, que significava o disco solar físico, o centro de um deus. No seu reinado, Aton tornou-se o senhor do sol e o calor vital do sol foi deificado. Dizia-se que Aton era atuante por toda parte através dos seus raios, e seu símbolo era o disco nos céus. Dele, os raios divergentes desciam para a terra, com as extremidades em forma de mãos. Cada mão segurava o símbolo da vida, a cruz ansata (o ankh). Havia extraordinária simbologia nisto, pois representava o poder divino do Deus Supremo. O sol passou a ser o símbolo da divindade. Não era um deus ou um ídolo mas um símbolo físico que representava Aton. Na época em que viveu, Amenhotep teria pouco ou nenhum conhecimento dos aspectos físicos e químicos do sol. Tebas tornou-se a "Cidade do Brilho de Aton". Aton ficou sendo não só o Deus supremo mas o deus do império. Três cidades foram fundadas para representar as três divisões do Império que eram: Egito, Núbia e Ásia.

No quarto ano de reinado de Amenhotep III, a Rainha Tiy deu-lhe um filho que recebeu o nome de Amenhotep IV (que mais tarde seria renomeado como Akhenaton - a glória de Aton). Aos vinte e um anos, este casou-se com a bela Nefertiti, que talvez fosse sua meia-irmã. Ela também pode ter sido filha de Aye, sacerdote do Templo de Amon, em Karnak, cuja mulher também se chamava Tiy. Mas alguns estudiosos acreditam que Nefertiti era filha de Dushratta, rei de Mitani (o que é mais provável). No festival Sed de Amenhotep III, quando celebrou seu trigésimo ano de faraó, ele nomeou o filho co-regente. Em Tebas, eles reinaram juntos por quatro anos. Tal como o pai, Amenhotep IV sentia que era preciso compensar o poder de Amon, havendo também a necessidade de um deus universal que fosse reconhecido não só no Egito mas também nas províncias estrangeiras. E assim talvez a fidelidade dos povos submetidos pudesse ser mantida sem ser necessária a freqüente demonstração de força do exército.

Segundo a opinião da maioria dos pesquisadores, Amenhotep III morreu no quarto ano da co-regência. Assim, nessa ocasião, Amenhotep IV começou a construir nova cidade e capital a cerca de 380 km ao norte de Tebas, num local virgem da margem leste do Nilo. Dois anos depois, com Nefertiti, deixou Tebas e estabeleceu-se com a corte na nova capital, à qual deu o nome de Akhetaton, "o horizonte de Aton". Conhecemos suas ruínas hoje pelo nome de Tell el-Amarna, devido a influência árabe. Ali construiu ele seu grande templo, um edifício sem telhado, cujo santuário ficava aberto aos céus, a Aton. Em contraste, os templos de Amon-Ra eram cobertos com telhados e o santuário localizava-se nas partes mais internas e escuras do prédio. O famoso decreto que instalou a nova religião em Akhetaton, tinha uma declaração solene: "Este é meu juramento verdadeiro, que é de meu desejo pronunciar, e do qual jamais direi: é falso; eternamente, para sempre." Amenhotep IV e Nefertiti permaneceram em Akhetaton durante onze anos, rodeados pelos funcionários e nobres da corte, que mandaram fazer túmulos para si nas colinas a leste da cidade. Neste túmulos há inscrições que nos falam da vida em Akhetaton, com referência a um só deus, Aton, cujo poder vivificante, simbolizado pelo disco solar, é irradiado pelos seus incontáveis braços e mãos.

Quando Amenhotep IV rompeu com os sacerdotes de Amon, em Karnak, mudou seu nome para Akhenaton, que significa "a glória de Aton", "vivendo em Maat - a verdade". Em cada túmulo há uma representação do disco solar de onde descem raios, cada um com a extremidade em forma de mão humana, que às vezes toca figuras também humanas.

Aye, que talvez fosse o pai de Nefertiti, transferira-se para a nova cidade e se tornara nobre da corte. A nova religião encerrava o amor ao belo na natureza e na arte. Foi ali que Akhenaton compôs seu grande hino, de um tema único, um objeto de culto, que com simplicidade revela sua filosofia religiosa. Hoje, os historiadores acreditam que o conceito referia-se não só ao disco solar físico mas também ao seu poder criador de vida. A fé de Aton não era apenas política; era sobretudo religiosa. Em sua convicção, Akhenaton declarou que Ra, o sol, era uma manifestação física, ou símbolo, do Deus único - o símbolo da própria vida. E o culto do sol como um deus mudou para o culto de Deus, simbolizado pelo sol, cuja essência "existe por toda parte e em tudo".

Começaram a surgir dificuldades nas províncias do norte. Vieram pedidos de ajuda escritos em plaquetas de argila em caracteres cuneiformes. É de duvidar que ele as tivesse recebido e o mais provável é que fossem interceptadas por traidores da sua corte. Também parece não existirem registros de que tenham obtido resposta. As províncias estavam sendo atacadas. Akhenaton, o poeta e místico, prosseguia em seu objetivo de derrubar a fé politeísta dos seus antepassados. As plaquetas, uma grande quantidade delas encontradas na cidade de Akhetaton, foram descobertas em 1887. Elas revelam que os governantes já trocavam correspondência diplomática. Estas plaquetas são conhecidas como as Cartas de Amarna. O idioma diplomático usado nessas comunicações era conhecido como cuneiforme babilônico. Havia cartas-plaquetas de estados vassalos como a Síria, Babilônia e Mitani. Os hititas, oriundos da atual Turquia, avançaram para o sul e deram início ao ataque às cidades leais ao faraó. Seus governadores escrevera-lhe pedindo apoio militar. Não houve ajuda. A intriga, por certo bastante disseminada, jamais permitiu que as cartas chegassem às mãos de Akhenaton. Ao propor a devoção a Aton, não deixava de se preocupar com o poderio de Amon-Ra em Tebas, e enviou emissários por toda a terra para eliminar o nome deste deus onde quer que aparecesse escrito. Ele não ignorava que havia muita inquietação e confusão; parece que os que viviam fora de Akhetaton não aceitava a nova crença.

Não há dúvida de que Nefertiti, como o próprio Akhenaton, era intensamente dedicada à religião de Aton. Talvez como qualquer idealista, ela jamais pensasse num meio-termo. Parece, porém, que Akhenaton procurou reunir o povo por meio de um compromisso. Sabe-se que após o décimo quarto ano do seu reinado, sua mulher, Nefertiti, deixou o palácio da cidade de Akhetaton e mudou-se para o chamado Palácio do Norte, cerca de uns dois quilômetros de distância. Nessa época, a filha maior, Maritaton, casou-se com um meio-irmão de Akhenaton, Semencaré, Também conhecido como Sakere. Foram juntos para Tebas, onde Semencaré reinou como co-regente. Akhenaton permaneceu em Akhetaton. É provável que Semencaré e Maritaton tenham partido por insistência de Akhenaton, que acreditava que os sacerdotes poderiam ser influenciados a abalar seu poder. Talvez este fosse um esforço para enfraquecer o poderio de Amon-Ra. Se esta era a intenção, não deu certo. No terceiro ano da sua co-regência, Semencaré começou a restaurar uma forma de culto a Amon-Ra, em Tebas. Isto pode ter sido parte do acordo do faraó e pode, também, ter significado uma cisão na corte, com uma facção que insistia no completo retorno a Tebas. Akhenaton morreu aos quarenta e um anos de idade, no décimo sétimo ano do seu reinado, conforme se constatou. Seu corpo jamais foi encontrado. Há alguns anos, pensou-se que era sua a múmia descoberta perto do túmulo de Tutankhamon, mas verificou-se que não. Ela seria talvez de seu meio-irmão, Semencaré.

Não se sabe como Akhenaton morreu. Parece que Semencaré morreu em Tebas na mesma época. Ele tornou-se faraó quando contava talvez vinte e quatro anos. Ao mudar-se para o Palácio do Norte, Nefertiti levou consigo outro meio-irmão mais novo de Akhenaton, Tutankaton, que era apenas um menino. Nefertiti providenciou imediatamente o casamento de sua terceira filha, Anksenpaaton, com Tutankaton.

A Segunda filha, Meketaton, morrera. Isto legitimava a ascensão de Tutankaton ao trono, que por costume e tradição tinha de ser pela linha feminina. Tutankaton e Anksenpaaton eram crianças ainda. Ele reinou em Akhetaton por muito pouco tempo e logo foi obrigado ou persuadido a voltar à capital ancestral de Tebas e a adotar novo nome, Tutankhamon. A esposa mudou o seu para Anksenamon. Seu túmulo continha o símbolo de Aton, o disco solar com raios descendentes. Assim, claro que ele devia adotar a religião de Aton quando subiu ao trono. É provável que Nefertiti tenha morrido nessa época, mas seu corpo também jamais foi encontrado (é evidente que deve ter havido uma conspiração para eliminar Akhenaton e sua bela esposa, Nefertiti).

Seu busto magnífico esculpido, que se pôde ver em Tell el-Amarna, comprova sua incomparável beleza. Esse busto encontra-se atualmente no Museu de Berlim. Já não existia o desejo ou a força de incutir a crença em Aton. Os sacerdotes de Amon-Ra, de Tebas, logo recuperaram todo o poder e a antiga religião foi restabelecida. Despacharam-se emissários por todo o país para apagar dos monumentos o nome do rei herege. Nas paredes dos túmulos situados em Tell el-Amarna e também nas do túmulo do vizir, Ramoses, no Vale dos Reis, encontram-se reminiscências de desfiguração das representações de Akhenaton e de Nefertiti, executada pelos defensores do sacerdócio de Amon-Ra do Templo de Karnak, após a morte de Akhenaton. Parece que a desfiguração de todos os monumentos a ele relacionados foi feita em todo o país. A cidade de Akhetaton foi abandonada e caiu em ruínas. Anksenamon precisava de um marido para ficar a seu lado como rei; ela via os cortesãos intrigando ao seu redor sequiosos de poder. Então escreveu ao rei hitita pedindo que lhe enviasse um dos filhos para ser seu marido e rei. A solicitação foi atendida, mas o pretendente jamais chegou a Tebas, pois a intriga cuidara da sua eliminação. O antigo primeiro-ministro de Akhenaton, Aye, agora aparece na História como o faraó seguinte. Aye subiu ao trono por ser pai de Nefertiti. Tutankhamon, o último descendente da família, morreu por volta de 1344 a. C.

A Décima Oitava Dinastia logo chegou ao fim. Após a breve reinado de Aye, Horemheb segundo consta tomou o trono, reivindicando-o através do casamento com a irmã de Akhenaton, Beketaton. Quando Horemheb, um militar oportunista, apossou-se do trono, logo restaurou a supremacia do deus tebano, Amon-Ra.

Algumas das opiniões dadas acima foram apresentadas por arqueólogos, John Pendlebury e H. W. Fairman, e pelo famoso escritor e historiador, Leonard Cottrell. O período da Amarna criou nova arte, uma arte de puro realismo. O antigo estilo formal da escultura e da pintura foi relegado. Akhenaton, Nefertiti e a família não eram representados como deuses, mas como seres humanos e devoção humana. Por qualquer razão, Akhenaton permitiu que seus defeitos físicos fossem destacados no realismo da arte do seu tempo. Ele e a esposa tiveram seis filhas, e Akhenaton e Nefertiti se identificavam nas atitudes e comungavam o mesmo ideal de viver em prol da beleza e da verdade. A luz da filosofia religiosa de Akhenaton brilhou por tão pouco tempo, mas não apagou. Ela continuou ardendo baixo, para reavivar-se nas futuras gerações de gente esclarecida nos séculos de uma era posterior. O Deus único de Akhenaton até hoje continuou a enviar seus raios.

Somos inclinados a pensar que a literatura inspirada é de origem relativamente recente, e também a crer que havia pouca ou nenhuma literatura bela ou significativa antes da compilação da Bíblia. Entretanto, após a descoberta, e eventual tradução, da Pedra de Rosetta, os arqueólogos puderam determinar a importância dos caracteres hieroglíficos que são as palavras de um importante rei egípcio, cujo significado eles consideravam digno da melhor literatura.

Amenhotep IV, agora Akhenaton, esforçava-se por fazer com que o povo aceitasse sua doutrina ou filosofia. Uma pessoa que respeitava seus ensinamentos disse: "Como é próspero aquele que ouve teus ensinamentos de vida". Seus súditos achavam que percebiam uma relação definida entre Akhenaton e Aton, o deus supremo. Através de revelações, na certa experimentadas durante seus períodos de meditação, Akhenaton compôs os hinos a Aton. Além do que é mencionado aqui, existem sem dúvidas muitos belos hinos de Akhenaton que se perderam. Em um ou mais dos seus hinos encontramos as palavras: "Ó, tu, Deus único, incomparável". Akhenaton deu novo espírito ao Egito. Esforçou-se para que o novo ensinamento superasse o antigo tradicionalismo. Não há dúvida de que ele era capaz de meditação profunda e séria; compreendeu a idéia do Criador, do Criador da Natureza; viu o propósito benéfico em tudo o que fora criado; tinha uma percepção clara do poder e da beneficência de Deus. Sem dúvida, Akhenaton atribuía certa dose de retidão ao caráter de Deus e achava que esta devia refletir-se no caráter dos homens. A palavra verdade surge muitas vezes nos hinos de Akhenaton, preservados em escrita hieroglífica. Ao próprio nome ele acrescentou: "Vivendo na Verdade". Não há dúvida quanto à intenção desta frase. Ele viveu uma vida aberta e franca, e a verdade, para ele, era indubitavelmente aplicada, pelo menos em parte, na sua aceitação dos fatos cotidianos da existência. Seu reinado deu origem a uma nova arte; os artistas da sua corte, com pincel e cinzéis, deixaram-nos o realismo simples e belo que viam na vida animal. Essa arte reproduzia parte da verdade que Akhenaton viveu. Em A História do Egito, James Henry Breasted escreveu: "Ele baseou a soberania universal de Deus em seu cuidado paternal dedicado a todos os homens, independente de raça ou nacionalidade; e para o egípcio orgulhoso e exclusivista ele mostrou as maravilhas universais do pai comum da humanidade... É este aspecto do espírito de Akhenaton que é particularmente extraordinário; ele foi o primeiro profeta da História". Procurou voltar à natureza; reconhecer a bondade e a beleza encontradas nela. Procurou resolver o seu mistério que, como disse Breasted: "acrescenta apenas o elemento adequado de misticismo nessa fé". Com referência à filosofia religiosa de Akhenaton, Sir Flinders Petrie, em sua História do Egito, disse que "esta não poderia ser logicamente aperfeiçoada na atualidade". Para os sacerdotes, Akhenaton era conhecido como fanático; chegou mesmo a ser chamado de "o criminoso de Akhetaton". Com a morte de Akhenaton, o antigo sacerdócio de Amon recuperou o controle; a antiga religião foi restabelecida, a religião dos inúmeros deuses. Mas a evolução de Akhenaton e seu reconhecimento da verdade, como ele a viu, de um deus supremo como ele o compreendia, deixara marca indelével na história do mundo. Era o esclarecimento trazido à humanidade há mais de três mil anos. Seu aparecimento no horizonte do seu tempo deixou um sinal que jamais se apagará. Breasted, um dos mais famosos egiptólogos do mundo, escreveu que Akhenaton, destemido, enfrentou a tradição "para que pudesse disseminar idéias que ficavam muito além e acima da capacidade de compreensão da sua época... O mundo moderno ainda está por avaliar adequadamente, ou mesmo familiarizar-se com esse homem que, num período tão remoto e em condições tão adversas, tornou-se o primeiro idealista do mundo, o primeiro indivíduo do mundo". É interessante que hoje em dia a atenção do público se volte para Akhenaton e o período do seu reinado. Um belo filme, que tornou-se um clássico, com o título de O Egípcio, inspirado no livro do mesmo nome, de Mika Waltari, é exemplo desse interesse. Muitas outras obras foram escritas por Akhenaton.

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